3 — POR QUÊ? – THÁSSIO FERREIRA

|Alguma coisa em mim que eu não entendo
Por Thássio Ferreira

O primeiro óbito fora em dezessete de março. Como saísse de casa quase todos os dias, cruzando alguns bairros até o hospital, notara que a cidade parecia funcionar agora de modo espasmódico. Feito movimentos peristálticos, costumava pensar, tanto se entranhara nela o jargão médico. Como um rodízio de pessoas nas ruas, em vez do rodízio de carros que havia antes do deserto, quando os veículos entupiam as marginais e o debate era sobre a velocidade máxima permitida. O rodízio de carros ainda vigorava formalmente, porque talvez ajudasse a manter as pessoas em casa, mas não havia mais fiscalização. O que ainda havia, afinal?

Então, sem que ninguém o houvesse instituído, se estabelecera um rodízio de bairros: numa terça feira, os pequenos comércios do Jardim da Glória reabriam suas portas, a medo, chapas de aço fixadas ao chão e ao teto emoldurando frestas por onde se trocar produtos entre mãos assustadas; ciclistas e corredores com gestos envergonhados (Me desculpem, não aguentava mais! Já já eu volto pra casa!) ou desafiantes (Sim, estou aqui, na rua, sob o sol! Que vai fazer? Ora, me deixe!). No dia seguinte, o Jardim voltava ao silêncio, e o fluxo de gentes se transferia à Mooca: mulheres apressadas apertando bolsas contra o corpo, homens fumando a passos lentos, todos evitando passarem perto uns dos outros; alguns alto-falantes anunciando promoções desesperadas. Na quinta, era a vez do Belenzinho. Depois, do Tatuapé. Até a Vila Matilde, onde trabalhava. Seria assim também nas outras partes de São Paulo? Ela evitava assistir às notícias.

De tempos em tempos, mais ou menos uma vez a cada oito ou dez dias, as ruas se pontilhavam de mais gente ao mesmo tempo. Talvez fosse a necessidade de algo como um fim de semana, um condicionamento mental mais forte que as sirenes, as recomendações, o medo. Nesses dias ela agia (nos outros também; porém nesses: com mais voracidade).

Era um contrassenso, não negava. Além de horrendamente cruel. Não havia justiça ali, não se iludia. Mas quem disse que a punição obedece à justiça? Tratava-se de punição, era isso. Era preciso punir, indiscriminadamente. Como o próprio vírus. Pois senão, qual o sentido? Era preciso haver um sentido. As tantas mortes, bocas abertas sufocando em pleno ar como peixes fora d’água, os cadáveres azulados empilhando-se em salas fechadas, aguardando remoção, dias inteiros sem dormir, a pele do rosto lanhada pelas bordas da máscara, os pesadelos, quando foi que tudo se condensou naquele caroço na garganta, ou talvez nalgum canto do neocórtex cerebral, esmagando a racionalidade com aquela necessidade de um significado?

Os dias sem dormir. As mãos e pernas fracas de cansaço sob o chuveiro. O cheiro de álcool. Os pesadelos. Os corpos. E então, do atordoamento, martelando agudo por quê? por quê? por quê?, na quinta ou sexta crise de choro misturado a comprimidos e uísque, os estilhaços farpados de uma resposta sem sentido porque nada mais lhe fazia sentido: porque é preciso punir. Purificar. Cegamente. Não pela vontade de qualquer deus, em que ela nunca acreditara, mas porque…. Porque sim. Qualquer outra coisa, qualquer outra força. A força do ilógico, do gume da faca, do que fere mais fundo até a dormência. E do formigamento da dormência, para acalmar o tremor das mãos e não deixar escapar das palmas em carne viva aquele sentido recém agarrado, decidiu: ajudaria o vírus, então. Era preciso. Dormiu.

No dia seguinte, levou para o hospital sacolas plásticas de mercado e os menores tupperwares que tinha na cozinha. No caminho de volta comprou algumas quentinhas e talheres descartáveis. Embora inconclusivos, estudos apontavam que o vírus poderia permanecer vivo por até três dias em superfícies plásticas e metálicas.

Passou a coletar, meticulosamente, fluidos de pacientes e cadáveres. Não era difícil, em meio à sobrecarga geral, ficar sozinha com algum diagnosticado e tirar-lhe do nariz ou das gengivas um tanto de secreção. “Para novos testes. Pesquisas”, dizia, guardando o material nalgum potinho. Nem mesmo as salas para onde se levavam os mortos eram vigiadas. Claro que não. Quem entraria ali a não ser por necessidade? Ela. O corpo teso de atenção muito concentrada para expor-se o mínimo possível, mas suportando o risco, porque era preciso, porque a punição não podia esperar, ela recolhia das cabeças inertes muco e saliva em quantidade ainda maior do que fazia dos vivos, sem precisar lhes dar satisfação. Às vezes esfregava diretamente sacolinhas de compras dentro das bocas, com as mãos enluvadas, o tupperware aguardando no bolso.

Nem por isso deixava de cumprir suas funções no hospital. Era preciso punir, sim, mas também salvar. Assim a purificação: alguns sobreviveriam, outros não. Este o significado. No caminho de casa, espalhava aqui e acolá as secreções que havia recolhido: discretamente derramando o caldo quase transparente nas barras de um carrinho de supermercado, ou sobre frascos de xampu e tubos de pasta de dente no corredor vazio de uma farmácia, ou nas maçanetas dos vizinhos do grande condomínio em que morava, onde as câmeras haviam sido desligadas por contenção de custos. Às vezes, antes do trabalho, distribuía a moradores de rua quentinhas contaminadas, com talheres contaminados, em sacolinhas contaminadas, confiante na sobrevida dos vírus colhidos na véspera.

Mas era naqueles esquisitos fins de semana, caídos em qualquer dia, que atuava com mais afinco. Quando percebia o movimento mais intenso de pessoas na grande avenida visível da janela da sala, traçava um plano de acordo com as circunstâncias: se tivesse retornado há poucas horas do plantão, juntava todo o material guardado em casa e saía às ruas do bairro e redondezas, transida de vontade cega. Deixava sacolas plásticas em prateleiras de biscoito, alguém haveria de retirá-las dali (com mãos nuas — pensava — que seja com mãos nuas!). Pedia para usar o banheiro de lanchonetes e restaurantes que estivessem abertos, em vez de servindo apenas por trás de mesas empilhadas à porta como trincheiras, e lambuzava torneiras e caixas de papel toalha pregadas à parede, mirando justamente os que houvessem acabado de lavar as mãos, julgando-se seguros para tocar o próprio rosto, o de seus filhos, o de seus pais de pele flácida levados para tomar um pouco de sol. Chegava mesmo a oferecer a outros, quando a ocasião se apresentava, máscaras cuidadosamente contaminadas em casa, com seu melhor sorriso e um discurso de que “Temos que cuidar uns dos outros.” Se precisasse ir ao hospital, redobrava as coletas de fluidos, inventando um mal estar ou qualquer outra desculpa depois de poucas horas, para ir embora e se dedicar à missão auto-imposta: punir, purificar. Compensava as saídas mais cedo aparecendo voluntariamente em outras folgas, também apenas por algumas horas, quando achasse que não tinha em casa material bastante. Levava quentinhas frias (para que o calor dos alimentos não destruísse os vírus a serem derramados, como um molho) e comovia os colegas ao dizer que era para distribuir na volta para casa. E tornava às ruas, até anoitecer.

Nessas noites, dormia sem precisar de comprimidos nem uísque.

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Por quê? é a terceira parte de uma trilogia (talvez tetra, talvez mais) de prosas escritas em quarentena. Os dois primeiros textos podem ser lidos aqui: Baratas (ou prenúncios da peste) e Enquanto o Sol

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Thássio Ferreira
, escritor radicado no Rio de Janeiro, é autor de (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018 —  obra vencedora do i Concurso Literário da editoria universitária). Foi editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de LetrasEscamandroGuetoMallarmargensRuído ManifestoGerminaRevista Ponto (SESI-SP), aqui na Vício Velho, InComunidade (Portugal), e outras. Mantém página no Facebook e o Instagram