Coluna | Sibila
Ainda que saibamos de poucas, existiram mulheres escritoras na Idade Média. Em sua maioria, mulheres religiosas, uma vez que os monastérios eram os lugares privilegiados do saber. É importante chamar atenção para o fato de, nesse período, apenas uma ínfima parte da população europeia ser letrada, e era, sobretudo, no espaço religioso onde havia mais acesso ao conhecimento.
Partindo dessas informações, ter existido a mulher sobre a qual falarei neste texto, Christine de Pizan, foi uma excepcionalidade. Nasceu em 1364, em Veneza, mas é conhecida por seu nome francês. É considerada a primeira escritora profissional do Ocidente.
Claro que ela não foi alguém que simplesmente brotou em meio à corte francesa do século XIV. Seu pai era médico e astrólogo, um acadêmico; sábio, portanto. Lecionava na universidade de Bolonha, quando foi chamado à França para servir ao rei Carlos V.
Christine, então, ainda criança teve a oportunidade, em meio à corte cultivada de Carlos V – conhecido pelo epíteto de “o Sábio” – de aprender a ler, a escrever, teve a rara oportunidade de estudar. Não era nobre, mas teve a chance de crescer no melhor ambiente possível para se desenvolver intelectualmente fora de um convento, uma vez que a universidade não estava aberta às mulheres.
Casou-se por volta dos dezesseis anos com o secretário do rei, nove anos mais velho que ela. Do matrimônio, nasceram duas filhas e um filho. Como se pode ler no poema abaixo traduzido pela pesquisadora e tradutora Carmem Lucia Druciak, Christine foi, aparentemente, feliz no casamento – o que costumava ser bem raro – até a morte de seu marido:
Só estou e como tal me amparo,
Só me deixou de quem era querida,
Só estou e sem ninguém, nem preclaro,
Só estou, mui dolorosa e ferida,
Só estou, em desalento, sem vida
Só estou, mais que uma outra perdida,
Só estou, sem amigo, desprovida.
Só estou a quem me vê, reparo,
Só estou, em um canto escondida,
Só estou e no choro me encaro,
Só estou, mui dolorosa e garrida,
Só estou, por nada mais abatida,
Só estou, em meu cômodo banida,
Só estou, sem amigo, desprovida.
Só estou continuamente e não saro.
Só estou, quer eu vá ou sem saída,
Só estou, inda que aqui muito raro,
Só estou, de tudo destituída,
Só estou, com rigor diminuída,
Só estou sempre, e entristecida,
Só estou, sem amigo, desprovida.
Meu rei, olhai minha dor investida :
Só estou, pelo luto acometida,
Só estou, pelas sombras tingida,
Só estou, sem amigo, desprovida.
A voz do sujeito poético no primeiro verso do texto original afirma que está sozinho e que assim deseja continuar – Seulete suy et seulete vueil estre. Em outro texto, Le Chemin de longue étude – excerto igualmente traduzido por Druciak, assim como os seguintes –, Christine afirma que não desejava nenhuma outra união além da que teve:
[…] Sua companhia me era tão sedutora./ Quando estava perto de mim,/ nenhuma outra mulher era/ mais repleta de felicidade,/…/ Desde que fui separada dele/ não tive outra metade/ e não desejo ter,/ não importa o quão sábio ou rico seja.
Com a morte do pai e a do marido pouco depois, em 1389, Christine, aos vinte e cinco anos, ficou responsável por seus filhos, sua mãe e uma sobrinha. Decidiu não se casar novamente nem ir para um convento, dois destinos comuns e quase compulsórios às viúvas. Na Idade Média na França, só era possível a uma mulher decidir continuar sozinha, pagando às autoridades.
Christine precisou buscar formas para sobreviver. Demorou catorze anos para ganhar o direito de receber os soldos atrasados de seu marido falecido e mais sete, para recebê-los de fato. Nesse meio tempo, encontrou na escrita uma forma de manter a si e aos que dependiam dela. No entanto, manter-se não era algo esperado de uma mulher em sua posição social, o que demonstra este trecho de Le Livre de la Mutation de Fortune:
Em suma, havia aprendido tudo o que era necessário para comandar um navio. Não foi nada fácil, mas aplicando-me aprendi tudo, de modo que me tornei meu próprio comandante, pois era necessário, já que eu deveria socorrer os de minha casa e a mim mesma, se eu quisesse escapar da morte. Eu era então, de fato, um homem, e isso não foi nenhuma bobagem: dali em diante eu era capaz de pilotar meu navio.
Iniciou sua obra pela criação lírica, o que a permitiu amadurecer como escritora, segundo ela mesma nos conta em Le livre de l’Advision Cristine:
Então me coloquei a forjar coisas bonitas, de início mais leves, e assim como o artesão que cada vez mais aprimora sua obra cada vez que a toma, assim também, sempre estudando vários temas, meu entendimento se imbuía cada vez mais de coisas novas, aperfeiçoando meu estilo com mais sutileza e nas mais importantes matérias.
Nesta mesma obra, Christine admite que foi a viuvez que a permitiu estudar, uma vez que não estava presa às atividades domésticas.
O talento de Christine tornou-se conhecido na corte. Recebeu, então, a encomenda de uma biografia sobre Carlos V. Ao que tudo indica, Christine de Pizan foi a primeira mulher a escrever um livro de história e ser paga por isso. Em um de seus textos, ela teria afirmado ter consciência de que uma mulher escritora em sua época era incomum e por isso seus livros eram amados. Porque aos príncipes e poderosos agradariam as coisas insólitas, as coisas extravagantes.
Christine de Pizan entrega-se às encomendas e escreve sobre diversos temas: tratados filosóficos e políticos; textos sobre história, heráldica, arte militar; obras didáticas, epistolares e religiosas. Nos primeiros sete anos de escrita, desenvolve quinze obras, fora a criação lírica.
É preciso lembrar que a imprensa ainda não havia sido criada, e o modo de fazer uma obra circular era muito restrita. Só seriam feitas cópias se o manuscrito original gerasse demanda, já que absolutamente tudo que envolvia a produção de um livro era feito à mão.
Christine fez, ela mesma, cópias de seus manuscritos. Ou seja, ela era autora, editora e copista. Pizan chegou a ter pelo menos três oficinas onde empregou copistas e uma artista, uma mulher para fazer as iluminuras. Muitas de suas obras eram luxuosas e refinadas, estrategicamente dadas de presentes a nobres que poderiam se tornar seus mecenas – isto é, financiadores –, como de fato aconteceu.
Duas de suas obras destacaram-se bastante em sua época, depois foram esquecidas, e no século XX foram resgatadas principalmente pelos estudos de gênero, em razão do conteúdo em defesa da mulher. São elas Querelle de la Rose e A Cidade das Damas.
Querelle de la Rose corresponde a cartas trocadas entre Christine de Pizan, Jean de Montreuil e Gontier Col nas quais discutem um livro muito famoso da época, Roman de la Rose. Pizan argumenta que a obra passa uma visão extremamente equivocada e depreciativa das mulheres, influenciando os leitores a terem relacionamentos desequilibrados, levando a desarmonia entre homens e mulheres. Infelizmente, a crítica de Pizan permanece válida, uma vez que o cerne de sua reflexão é o machismo estrutural perpassado, nesse caso, pela literatura. A escritora reúne as cartas e as presenteia como livro à rainha Isabel da Baviera, esposa de Carlos VI.
Já A cidade das Damas – aqui escrito em português, pois que há tradução para nossa língua realizada por Luciana Calado Deplagne – é um compilado de mais de uma centena de biografias de mulheres notáveis, reais ou não, que serviriam de modelos para as leitoras. Como defende a pesquisadora Ana Rieger Schmidt, Christine de Pizan estrutura seu argumento com base nas tradições filosóficas medievais a fim de afirmar que as mulheres são tão capazes quanto os homens de fazer pleno uso da razão, como se pode ler nesse trecho da obra:
[…] Sabes por que mulheres conhecem menos que homens? […] é porque elas são menos expostas a uma larga variedade de experiências já que precisam ficar em casa o dia inteiro em nome do lar. Não há nada como uma gama completa de diferentes experiências e atividades para expandir a mente de qualquer criatura racional.
Christine de Pizan viveu em um momento de grande instabilidade política na França. Quando a turbulência aumentou, decidiu passar seus últimos anos de uma vida de quase setenta em um convento. Lá, em 1429, ainda escreveu, um ano antes de sua morte, no calor das vitórias francesas da Guerra dos Cem anos, um poema em homenagem a Joana D’arc, O Ditié de Joana d’Arc – traduzido por Nathalya Bezerra Ribeiro. Dois anos depois a grande heroína foi executada na fogueira.
A vida de Christine de Pizan – com muito mais detalhes do que essas poucas laudas me permitem contar – foi excepcional, para me repetir. Suas obras não só obtiveram sucesso na corte francesa como chegaram mais longe. A cidade das Damas foi traduzida para algumas línguas europeias, incluindo o português, nos século XV e XVI.
Evidentemente, não é um texto revolucionário do ponto de vista da moralidade e dos papéis sociais de um modo geral. Ao contrário. Por isso, há quem negue o adjetivo de feminista a Christine – o que, a rigor, é um uso anacrônico. Entretanto, Pizan defendeu a educação das mulheres e a igualdade da capacidade cognitiva de homens e mulheres, desde que havendo a mesma formação. Ora, não é essa uma pauta feminista? Por mais que ela não tenha argumentado em seus textos por uma autonomia financeira, por exemplo, sua vida mostra como ela soube ser o comandante de seu próprio navio. Sua história de vida é seu argumento.
Particularmente, me pergunto se Christine amou tanto o marido, como conta sua poesia, ou se foi uma estratégia para afastar a possibilidade de um novo matrimônio-prisão. Como também me pergunto se a escolha em debater o já centenário Roman de la Rose não foi além de uma grande insatisfação com a visão depreciativa das mulheres, foi uma forma de provocar uma discussão polêmica. Nada mais fácil para ganhar visibilidade no mundo das letras – ou talvez em qualquer mundo humano – do que uma boa polêmica com quem já tem o nome consolidado. Para mim, Pizan era extremamente esperta, e só isso já é o suficiente para me inspirar.
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1 Trecho retirado do podcast Historias felices y tristes de Occidente, episódio Christine de Pizan: escritora, intelectual y feminista de la Edad Media.
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Renata de Castro ( linktr.ee ) é poetisa, professora, tradutora, feminista e doutora em Literatura. Tem três livros publicados: O terceiro quarto (Benfazeja, 2017), Hystéra (Escaleras, 2018) e De quando estive em Alto-Mar: poemas de afogamento e algumas mortes felizes (Escaleras, 2021). Fez parte das Antologias Poéticas Senhoras Obscenas (Benfazeja, 2016), Damas entre Verdes (Selo Senhoras Obscenas, 2017), Senhoras Obscenas (Patuá, 2019) e da antologia bilíngue de poesia contemporânea de escritoras brasileiras e cubanas Sem mordaça. Sin mordaza (2021). Alimenta uma conta no Instagram com conteúdo relacionado à Literatura, em especial à Poesia.