Coluna | Sibila
Yo necesito un sol que me disuelva.
Embora o nome de Alfonsina Storni não circule muito entre brasileiros leitores de poesia, em 2020 parece ter havido um maior interesse das editoras – para nossa felicidade – em trazer sua obra à cena. São daquele ano traduções feitas por Pedro Soares Gediel de dois livros de Storni, Antologia Poética e Poemas de amor; além da recolha de cinquenta poemas de todos os seus livros e do ensaio de Wilson Alves-Bezerra, Sou uma selva de raízes vivas – do qual extrai os poemas e citações presentes neste texto.
Alfonsina Storni nasceu na Suíça, no cantão italiano. Em 1896, com apenas quatro anos, migrou com seus pais e irmãos para San Juan, na Argentina, onde teve uma vida cheia de desafios. Storni trabalhou no café do pai, foi atriz, professora, redatora, operária de tecelagem, zeladora de escola, caixa de farmácia, vendedora e funcionária em uma casa de comércio em que exercia a função de “correspondente psicológica”.
A vida de seus pais parece ter sido fundamental para quem Alfonsina veio a se tornar. Seu pai – sem tino para os negócios da família, depressivo e depois alcoólatra – talvez tenha lhe deixado como herança seu lado mais melancólico. Já sua mãe – que se dedicou às funções possíveis: escrever artigos em italiano e francês, dar aulas particulares, ter uma escola, além de trabalhar no café do marido junto à filha – parece ter legado o exemplo de tenacidade que a vida lhe exigiu continuamente.
Aos dezenove anos, tendo concluído o curso Normal, mudou-se para Rosário, onde viveu sozinha. Lá se envolveu com um homem de quarenta e três anos, casado. Sabendo-se grávida, mudou-se mais uma vez, agora para Buenos Aires, onde nasceu Alejandro.
Em seu primeiro livro, A inquietude do roseiral, de 1916, lê-se um de seus poemas mais famosos, A loba. Nele se vê sua força ao poetizar uma história vivida na carne:
“Eu sou como a loba.
Deixei o rebanho
E parti à montanha
Cansada do campo.
Eu tenho um filho fruto do amor, amor sem lei,
Que como as outras não pude ser, casta de grei,
Com o jugo no pescoço, livre ergo minha testa!
É com as mãos que eu afasto a mata.
[…]
Eu sou como a loba. Ando sozinha e dou risada
Do rebanho. Não preciso de nada. Quem me sustenta sou eu.
Seja onde for, pois tenho uma mão que é hábil,
Um cérebro ágil e não deixo por menos.
[…]
Sem dúvidas, Alfonsina Storni foi alguém que não seguiu a conduta imposta às mulheres do final do século XIX e início do XX. Isso não apenas por ter tido um filho fora da instituição casamento, mas também por seus posicionamentos e ações que pregavam a liberdade feminina. Assim como outras poetisas que ousaram escrever sobre o desejo feminino, Alfonsina também foi julgada não pela qualidade estética de sua criação poética, mas, sim, moralmente pelo conteúdo de seus poemas.
Ao ler os poemas de Sou uma selva de raízes vivas, imediatamente pensei em Florbela Espanca e Gilka Machado. As três contemporâneas – uma em Portugal, outra na Argentina e outra no Brasil – reclamavam, em sua lírica, a libertação das mulheres do jugo moral machista.
Storni escreveu sonetos, poemas em prosa, versos livres e brancos, além de artigos, crônicas e peças de teatro. Isto é, a escritora experimentou gêneros e aperfeiçoou sua criação. Ela assume que escreveu seu primeiro livro como forma de sublimar as dificuldades, “para não morrer”. No entanto, ela já escrevia desde os doze anos de idade.
A dor é um tema constante em seus versos, como se lê no último terceto do soneto Vem, Dor!:
Minha alma será o cantor e tua asa
será o gérmen caído no regaço
da terra em que brota minha poesia.
Imbricados à dor, costumam estar o amor e o desejo, como no poema Primavera, do mesmo livro:
Risonha carícia, eu não sei que seivas
me verte nas veias que me provoca vida.
Desata minhas dores e as alivia
e mortas se cobrem de mortalhas loucas.
Sinto que me roem, mas eu diria
que fizeram punhais de espinhos de rosa
e se arrancam sangue colocam ambrosia
no próprio sangue que ao brotar aflora.
Risonha carícia, me arrulha, me grita!
Te sinto tão suave e te sinto trágica…
Me chama, quiçá de amor são suas visitas
e talvez de morte sua carícia mágica…
Mas não, não quero analisar, te sigo;
anulo o cérebro, ignoro seus enredos,
e tão fundo triunfa que ao vibrar contigo
me florescem as entranhas a um só tempo.
Sinto necessidade de trazer o último verso em espanhol: ¡Revientan en flores todas mis entrañas! Ao vibrar com a primavera, o eu-lírico diz arrebentarem suas entranhas em flores. É uma daquelas imagens difíceis de serem traduzidas se estamos preocupados em manter minimamente a estrutura do texto original todo composto em rimas alternadas. Arrebentar em flores é a junção da intensidade da ação à delicadeza do obejto; é a vida natural instintiva e ferina, não obstante, bela. Por isso mesmo, o último verso do poema é tão erótico, uma elaboração discursiva sobre um prazer físico, um orgasmo.
Alfonsina foi deixada de fora da vanguarda de Buenos Aires, liderada por Jorge Luis Borges. Sofreu muitas críticas pelo erotismo de seus versos. Não era recomendada como leitura para jovens mulheres e foi dita como uma autora para ser lida por homens, como escreveu o crítico Luis Maria Jordán quando da publicação de seu terceiro livro, Irremediavelmente, em 1919:
Com a senhorita Storni pode se falar sem eufemismos, já que ela mesma nos dá exemplos de clareza no dizer, nas viris e harmoniosas estrofes de seus versos, nas quais a autora coloca e diz tudo, sem se importar nem um pouco com as entrelinhas ou com o comentário malicioso e miserável do público assustadiço. É bem verdade que este (sic) poeta não escreve para ser lido pelas jeunes filles em longos momentos fastidiosos das tardes, mas sim para homens apaixonados e violentos que tenham mordido da vida, alguma vez, com a mesma ânsia com a qual se morde o coração de uma fruta madura […] Oferece-se com a rude camaradagem de um marinheiro que com o pescoço nu e o cachimbo na boca, entrega-nos sem culpa no cordial apertar de mãos das chegadas.
Transpus este longo trecho para chamar atenção para os incômodos do crítico: o fato de uma mulher poder ser apaixonada como alguém que mordeu a vida como uma fruta madura, e ser assim sem culpa. Logo, ele conclui que Alfonsina é um homem, já que apenas estes podem ter desejos eróticos sem culpa.
Segundo Alves-Bezerra, Storni teria assumido para si esse lugar de outro viril, sendo esta talvez a única possibilidade de negar a posição submissa imposta às mulheres. Entretanto, leio as palavras da poetisa, em uma reportagem de 1931, “[…] reclamo para mim uma moral de homem” não como a adoção do lugar que tentavam colocá-la, mas, sim, como uma reivindicação de gênero, uma vez que em alguns de seus poemas fica claro seu questionamento da estrutura machista na qual vivia.
Para ilustrar meu ponto de vista, reproduzo dois poemas abaixo, Você me quer branca, de seu segundo livro O doce dano, de 1918, e Homenzinho miúdo, de seu terceiro livro:
Você me quer clara,
me quer de espuma,
me quer de nácar.
Que seja de açucena
e mais que tudo, casta.
De perfume tênue.
De corola fechada.
Que nenhum raio de lua
tenha me tocado.
Nenhuma margarida
se diga minha irmã.
Você me quer nívea,
você me quer branca,
você me quer alva.
Todas as taças
passaram por sua mão,
frutas e mel
seus lábios mancharam.
Você que no banquete
coberto de ramos
deixou as carnes
festejando Baco.
Você que nos jardins
negros da Enganação
vestido de vermelho
correu para o Estrago.
Você que o esqueleto
mantém intacto,
não sei ainda,
por qual milagre ou magia,
você me quer branca
(Deus te perdoe),
me quer casta
(Deus te perdoe)
você me quer alva.
Fuja para a mata;
Para a montanha;
Limpe essa boca;
Vá viver nas cabanas;
Toque com as mãos
A terra molhada;
Alimente o corpo
Com a raiz amarga;
Beba das rochas,
Durma no sereno;
Renove os tecidos
com salitre e com água;
fale com os pássaros
e se levante à aurora.
E quando as carnes
tiverem voltado,
e quando tiver posto
nelas a alma
que pelas alcovas
ficou enredada,
então, bom homem,
pretenda-me branca,
pretenda-me clara,
pretenda-me casta.
*
Homenzinho miúdo, homenzinho miúdo,
Solta o seu canarinho que ele quer voar…
Eu sou o canarinho, homenzinho miúdo,
Me deixa pular.
Estive na sua gaiolinha, homenzinho miúdo,
Homenzinho miúdo, mas que gaiola você me dá,
Digo miúdo porque você não me entende,
Nem nunca me entenderá.
Nem eu também lhe entendo, mas enquanto isso
Abre logo esta gaiola, que eu quero escapar;
Homenzinho miúdo, eu te amei por meia hora,
Não me peça mais.
Nos dois poemas, a veia irônica e debochada de Storni salta aos olhos. No primeiro, o questionamento é explícito: como alguém que não segue o preceito da retidão quer exigi-lo de mim? Já no segundo – meu preferido entre todos – os diminutivos, tanto nos substantivos como nos adjetivos, reforçam a pequenez do pensamento machista de aprisionamento da mulher.
Homenzinho miúdo ainda permite mais de uma interpretação. Tanto pode ser pensado sob a chave de leitura mais ampla, observando a estrutura de relacionamentos entre os gêneros; como pode também ser lido numa perspectiva erótica de modo estrito, uma vez que é possível afirmar que o eu-lírico se dispôs a meia hora, tempo hábil para amar sexualmente antes da falta de compreensão um do outro dentro de uma disputa de poder.
Alfonsina era feminista, anarquista, ateia. Em 1918, já era uma das lideranças da Associação pelos Direitos das Mulheres. Muitos de seus textos em periódicos versaram sobre o feminismo. Encontram-se, em português, alguns de seus artigos no livro Clássicas do pensamento social, organizado por Verônica Toste Daflon e Bila Sorj.
Em 1935, a poetisa foi diagnosticada com câncer de mama. Passou por uma cirurgia de retirada do nódulo, mas a doença já havia se espalhado e era necessário um tratamento de radioterapia. Alfonsina, depois da primeira sessão, abre mão do procedimento e se dedica a concluir seus planos antes de morrer. Dentre eles, a organização de seu último livro Máscara e Trevo, publicado em 1938.
Após uma conferência em Montevidéu, na qual falou sobre seu processo criativo sob o título com o qual nomeei este texto, Alfonsina seguiu para Mar del Plata. Na madrugada de 22 de outubro, no Clube Argentino de Mulheres – de acordo com Alves-Bezerra, lugar onde as mulheres podiam discutir política e veranear livres dos olhares masculinos –, do longo píer de duzentos metros mar adentro, Alfonsina Storni lançou-se ao mar, dando fim às dores causadas pela doença e também a sua exitosa carreira literária.
Dois dias antes, a poetisa envia ao jornal La Nación um poema intitulado Vou dormir:
Dentes de flores, touca de sereno,
mãos de erva, você, criada fina,
deixe prontos os lençóis de terra
e o edredom de musgos e cardos.
Vou dormir, criada minha, me deite.
Ponha uma luz na cabeceira;
uma constelação, à sua escolha;
todas são boas; traga aqui pertinho.
Me deixe sozinha: escute nascerem os brotos…
te nina uma planta celeste lá em cima
e um pássaro traça seus compassos
para que você se esqueça… obrigado.
Ah, um pedido, se ele ligar de novo,
não pegue recado, diga que saí.
Inúmeros fatos relevantes da vida de Alfonsina, da recepção de sua obra, de seu reconhecimento, de seus prêmios, de seus relacionamentos, de seus desafios para transitar na cena artística de língua espanhola ficaram de fora deste texto, onde eu gostaria de ter transcrito muitos outros poemas. Para mim, os ponteiros do relógio de Storni ainda correm.
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Renata de Castro ( linktr.ee ) é poetisa, professora, tradutora, feminista e doutora em Literatura. Tem três livros publicados: O terceiro quarto (Benfazeja, 2017), Hystéra (Escaleras, 2018) e De quando estive em Alto-Mar: poemas de afogamento e algumas mortes felizes (Escaleras, 2021). Fez parte das Antologias Poéticas Senhoras Obscenas (Benfazeja, 2016), Damas entre Verdes (Selo Senhoras Obscenas, 2017), Senhoras Obscenas (Patuá, 2019) e da antologia bilíngue de poesia contemporânea de escritoras brasileiras e cubanas Sem mordaça. Sin mordaza (2021). Alimenta uma conta no Instagram com conteúdo relacionado à Literatura, em especial à Poesia.