coluna | palavra : alucinógeno
aqui se testemunha uma perplexidade. de algum modo, dá para dizer que encontros são peregrinações. neles ocorrem paragens, alguns desvios, bifurcações. de vez em quando há promessas a santo inventado para o qual todas as rezas são sãs em sua devastação. não sei se é o caso. talvez tenha lembrado de reza por considerar no poema da patrícia algo próximo de uma oração (no melhor dos sentidos carnavalizados, pelos quais de fato ocorrem as sagrações do corpo).
pego a folha vermelha
cheiro
ela carrega o gosto do outono
na tua boca dizendo
— caqui
memória é um acontecimento de muito corpo. material e imaterial. faz uso em nós das semelhanças com alguns desfechos. às vezes não termina bem. quase inevitavelmente ocorrem procissões nas quais se imaginam lembranças e se apresentam histórias num tipo de crossover abraçado pela poesia. um detalhe é corpo inteiro e rumina vastidões de imagens.
há uma alteridade de encontros. é como se no poema ocorresse a permissão para pluri-identificação num pequeno ato de recolha. ou se no reconhecimento entre folha e cheiro nascesse uma poética sensorial, cujos corpos se envolvessem temporalmente numa invenção de confluências. assim: pegar a folha vermelha, aproximá-la do nariz e entrar com cheiro e tudo na dinâmica de suas nervuras. nisso, o toque se desdobra em cada círculo ou linha ou semiespaço na composição das digitais. nas brechas o tato, o contato como divindade múltipla de egos.
a cor vermelha da folha poderia instituir o refazimento de pulmões ao invadir o ritmo da respiração até que se dançassem os tons rubros na distância entre as mãos e o nariz. há apenas um sintagma no segundo verso – o cheiro –, e ele aponta para o que ficou daquilo que poderia ter sido escrito. mas não… não poderia ser de outro jeito, nem ali deveria haver mais palavras. talvez se fosse posto algo depois de cheiro – que é ação, que é incorporação –, alguma coisa se perderia. foi necessária a solidão do verso. ele insinua que nada mais era preciso para que se fundissem os espaços e fossem oferecidos copertencimentos.
se estivesse numa aula de biologia, recordaria do olfato retronasal. mas essa informação acabaria com a imagem de uma folha entrando nariz adentro, ruminando fatos, cheiros, numa metamorfose com a língua lambendo o outono e sentindo o gosto de uma lembrança, seja lá o sabor que uma recordação outonal tiver: folhas secas, casca de árvore, sol em meio tom, casal ruindo ou se encontrando, entrecaminhos. não parece ser possível dizer o tempo convergindo em memória, nem testemunhar as teorias literárias se desfazendo no que está por se dizer.
pr’além de todas as metáforas e lugares-comuns. melhor. por dentro de todas as metáforas e lugares-comuns, porque é de dentro que se sente o que chega ao corpo, ela – a folha – é apresentada numa antologia sensitiva, cujo paladar se enraíza na distância. “tua” é um pronome muito próximo. a gente diz teu, tua, pra quem está aqui, pertinho.
que as distâncias trazem uma ideia de afastamento, isso a gente sabe. mas que distância é essa que encurta o saber do tempo nos lábios do outro? quase dá pra dizer que lonjura é uma invenção, pois dependeria do modo de arquitetar esse longe. se o longe for aqui, à distância de um cheiro, ele encurta tanto que chega a ser pele. se for boca, é quase beijo. agora, uma palavra que saia dessa longitude não está preocupada com metros ou quilômetros. essa palavra só quer dizer; e, no que diz, torna perto qualquer espaço. torna-se o próprio espaço.
ela carrega o gosto do outono / na tua boca. leio e digo: ainda que tivesse muitos braços para medir o sabor do outono ou fossem meus dedos úmidos o suficiente para absorverem qualquer coisa que neles tocasse, faltaria um protocolo que arremetesse a lógica reta das compreensões contra o estranho modo de sentir clareza num poema. só assim para entender (na falta de palavra melhor) como uma folha pode carregar o gosto de uma estação numa boca. e mais, na boca de outra pessoa, que invade a razão cardeal para organização de cartografias afetivas. parece haver um longo itinerário de reconhecimentos concentrado nesses versos. desde pegar a folha, senti-la e se abrir para o desdobramento provocado por essa percepção. o sensorial é só o começo. poesia não é estética. ou não é só estética.
tudo isso só pra dizer… — caqui.
cá pra nós, fica o assombro, o sobressalto de devorar essa fruta pela interpretação. desvendar o caqui, claro, não é possível. mas dá para associá-lo à vermelhidão. é plausível fazer alusões à folha, claro, muito possível, e até evidente. mas nada disso diria o que realmente importa. porque caqui seria uma memória. uma experiência. um dia codificado. uma mensagem cifrada. enredo, medo ou dança. saudade cairia bem, talvez fizesse sentido. mas ainda não diz a experiência que ele é. caqui é multidão, aqui nem fruta é, e sim uma palavra que nos remete à fruta. é uma palavra dita desde a boca de outra pessoa, então caqui também é escuta. estamos em estado de poesia, o que me faz lembrar de um trecho de “não”, poema de augusto de campos:
aliond
ehápoe
siaain
danãoé
poesia
pensar o caqui num espaço transitório, que ocupa um dizer e ao mesmo tempo propõe um lugar desencadeador de memória – outono –, de algum modo assume o que o poema de augusto de campos levanta, porque poesia existe onde não é. ou onde ainda não é. e esse “ainda”, isso que falta, o “quase” – tão comentado por leminski –, isso tudo talvez fizesse mais jus ao sentido de perceber nesse caqui uma temporalidade corporal. cada leitor, leitora, reinventa o caqui em sua maneira de comê-lo, de torná-lo ainda mais poema, de pensá-lo com todo corpo, inclusive com o do outro. cada um ou uma recebe a palavra que ele é. o caqui é alucinógeno, já desconfiava!
p.s. o poema de Patrícia do Amaral Borde, que começa pelo verso “pego a folha vermelha”, foi o mote para a presente alucinação palavral. tal poema integra o livro Refração, publicado pela Urutau em 2023, sendo o segundo de poesia da poeta, que também é professora e artista visual. ainda passou por aqui um trecho do poema “não”, de Augusto de Campos, publicado em Não: Poemas (Perspectiva, 1990).
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Fábio Pessanha (Instagram / Facebook) é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor de na escuta o gatilho (Rizoma Projetos Editoriais, 2023), A forma fugaz das mãos (Patuá, 2021), A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Contempo, Poesia Avulsa, Mallarmargens, InComunidade, Quatetê, Arara, 7Faces e na própria Vício Velho.